CAIU A FICHA?

Orelhões públicos irão desaparecer após mais de 50 anos nas ruas brasileiras; veja quantos ainda existem na região

Orelhões públicos irão desaparecer após mais de 50 anos nas ruas brasileiras; veja quantos ainda existem na região

Foto: Vinicius Becker (Diário)

Orelhão desativado em frente ao Complexo Hospitalar Astrogildo de Azevedo, no centro de Santa Maria.

A cena tão comum de pessoas em cabines de orelhões pelas ruas das cidades até o início dos anos 2000 ficou no passado. Com os preços mais acessíveis dos telefones residencias e, principalmente, com a era do celular em pleno vapor, os aparelhos públicos não são mais imprescindíveis para comunicação de milhares de brasileiros nos quatro cantos do país. Ao contrário: saíram de moda, caindo em desuso. Tanto que os mais de 30 mil aparelhos públicos serão desativados de forma definitiva no Brasil afora, a partir deste mês de janeiro, só devem permanecer apenas em locais onde não há acesso a outros meios de telefonia.

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Na região, 29 orelhões aparecem como em funcionamento no site da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), distribuídos em 17 dos 39 municípios da área de cobertura do Diário, o que representa 43,6% das cidades com ao menos um telefone público. Mais da metade da região, 56,4% dos municípios, já não conta mais com o serviço de orelhões.

A maioria dos aparelhos pertence à operadora Oi, que responde por 26 equipamentos, enquanto a Claro mantém três.

Os municípios com maior número de orelhões são:

  • Jaguari, com cinco aparelhos (quatro da Oi e um da Claro);
  • São Gabriel, com quatro (dois da Oi e dois da Claro);
  • Santiago, com três aparelhos da Oi.

Santa Maria, porém, consta apenas uma vez no mapa, com um aparelho instalado no distrito de Boca do Monte, da Oi. Os dados são do segundo semestre de 2025 e podem ser conferidos no painel Anatel. Na cidade, atualmente, nenhum orelhão está ativo. A reportagem localizou oito aparelhos, todos desativados, espalhados por diferentes pontos da cidade.

Uma reportagem publicada pelo Diário em 2018 mostrou que, à época, o município ainda contava com cerca de 1,1 mil telefones públicos distribuídos nas regiões Norte, Sul, Leste, Oeste e Centro. Já em 2023, outro levantamento mostrou que esse número havia caído para 73 aparelhos. Agora, restam apenas oito estruturas físicas, nenhuma em funcionamento. Clique aqui e confira os detalhes.

Em 2018, o Diário ouviu 100 santa-marienses, e somente 17 disseram que ainda utilizam os telefones públicos.Foto: Lucas Amorelli (Diário/Arquivo)


No Rio Grande do Sul

Foto: Vinicius Becker (Diário)


No território gaúcho, os dados também mostram queda. Em 2023, cerca de 7 mil telefones públicos ainda estavam ativos no Estado. Já em 2025, segundo a Anatel, restam 155 orelhões obrigatórios, dos quais apenas 59 estão em funcionamento. Outros 74 estão em manutenção e 22 não têm informação atualizada sobre a situação.


O fim de uma era. Mas porquê?

Foto: Vinicius Becker (Diário)

O processo de extinção dos orelhões se intensificou após o encerramento dos contratos de concessão da telefonia fixa, firmados em 1998 e encerrados em dezembro de 2025. Com isso, Algar, Claro, Oi, Sercomtel e Telefônica deixaram de ter a obrigação legal de manter a infraestrutura de telefones públicos.

Conforme a Anatel, cerca de 38 mil aparelhos ainda permanecem no território nacional, mas a retirada já começou. Em janeiro, iniciou-se a remoção em massa de carcaças e equipamentos desativados. Os orelhões só devem ser mantidos, e de forma temporária, em cidades onde não há cobertura de telefonia móvel, e apenas até 31 de dezembro de 2028.

Em 2020, o Brasil ainda tinha cerca de 202 mil orelhões espalhados pelas ruas. Hoje, restaram apenas 38 mil.

Como contrapartida pela desativação dos telefones públicos, a Anatel determinou que as empresas redirecionem recursos para investimentos em infraestrutura de telecomunicações. Entre os compromissos assumidos, estão a implantação de redes de fibra óptica, expansão da telefonia móvel com tecnologia mínima 4G, conectividade em escolas públicas e construção de data centers.

— As empresas assumiram compromissos de manutenção da oferta de serviço de telecomunicações com funcionalidade de voz (incluindo os orelhões), em regime privado, por meio de quaisquer tecnologias, em localidades nas quais as empresas forem as únicas prestadoras presentes, até o prazo máximo de 31 de dezembro de 2028 — esclareceu a Anatel.

Quando o orelhão era indispensável

Imagem de arquivo mostra o uso cotidiano dos telefones públicos no Calçadão, quando os aparelhos ainda eram fixados diretamente em estruturas metálicas, sem cabine.Foto: Charles Guerra (Diário/Arquivo)

Durante décadas, especialmente entre os anos 1970 e o início dos anos 2000, os orelhões foram essenciais para a comunicação dos brasileiros. Para celulares, era possível utilizar a ligação a cobrar, com o prefixo 9090.

No início, o funcionamento dependia de fichas metálicas. Nos anos 1990, elas deram lugar aos cartões telefônicos. O primeiro telefone brasileiro com cartão foi instalado durante a Eco-92, no Rio de Janeiro, e o cartão inaugural trazia a imagem de uma vitória-régia.

Pouco depois, colecionar cartões virou mania. As estampas variavam entre temas como futebol, filmes e programas de televisão. A Oi, empresa que opera os aparelhos desde 2010, confirma que os cartões telefônicos não são mais confeccionados no Brasil.

As fichas telefônicas foram o primeiro meio de pagamento dos telefones públicos no Brasil, antes de serem substituídas pelos cartões magnéticos nos anos 1990.Foto: Vinicius Becker (Diário)


A história por trás do design

Foto: Acervo de Chu Ming Silveira (Divulgação)

O orelhão surgiu em 1971, criado pela arquiteta sino-brasileira Chu Ming Silveira, radicada no Brasil. Inicialmente, os modelos receberam nomes como Chu I e Tulipa. Embora cabines telefônicas já existissem em outros países, o design brasileiro se tornou icônico e foi reproduzido em lugares como Peru, Angola, Moçambique e China.

Além do visual marcante, o formato tinha uma função prática: melhorar a qualidade acústica. A estrutura ajudava a projetar o som para fora e reduzia o ruído externo, protegendo quem estava ao telefone.

O orelhão foi inaugurado oficialmente em janeiro de 1972, primeiro no Rio de Janeiro, no dia 20, e depois em São Paulo, no dia 25.


No Oscar

Foto: Victor Jucá (Divulgação)

Curiosamente, em meio ao fim da era dos orelhões, as cabines telefônicas voltaram a estampar grandes cartazes. O motivo está ligado diretamente ao cinema brasileiro: o orelhão aparece em destaque no cartaz do filme O Agente Secreto, vencedor do Globo de Ouro e indicado nas categorias de Melhor Filme, Melhor Filme Internacional, Melhor Ator (Wagner Moura) e Melhor Direção de Elenco.

Ambientado no Brasil de 1977, em vários momentos, o personagem de Wagner Moura precisa se comunicar sem deixar rastros, e encontra no orelhão uma forma discreta e segura de fazer contato.


Mapeamento de orelhões da região

  • Agudo: 0
  • Caçapava do Sul: 1 Oi
  • Cacequi: 1 Oi
  • Cruz Alta: 0
  • Dilermando de Aguiar: 1 Oi
  • Dona Francisca: 0
  • Faxinal do Soturno: 2 Oi
  • Formigueiro: 1 Oi
  • Itaara: 0
  • Itacurubi: 1 Oi
  • Ivorá: 0
  • Jaguari: 4 Oi, 1 Claro 
  • Jari: 0
  • Júlio de Castilhos: 1 Oi
  • Lavras do Sul: 0
  • Mata: 1 Oi
  • Nova Esperança do Sul: 0
  • Nova Palma: 0
  • Paraíso do Sul: 0
  • Pinhal Grande: 0
  • Restinga Sêca: 1 Oi
  • Rosário do Sul: 0
  • Santa Maria: 1 Oi
  • Santa Margarida do Sul: 0
  • Santana da Boa Vista: 0
  • Santiago: 3 Oi
  • São Francisco de Assis: 0
  • São Gabriel: 2 Oi, 2 Claro 
  • São João do Polêsine: 0
  • São Martinho da Serra: 0
  • São Pedro: 2 Oi
  • São Sepé: 0
  • São Vicente do Sul: 0
  • Silveira Martins: 0
  • Toropi: 0
  • Tupanciretã: 2 Oi
  • Unistalda: 0
  • Vila Nova do Sul: 1 Oi
  • Quevedos: 1 Oi

*fonte: Anatel

Jaguari aparece como o município com maior concentração de orelhões ativos na região. A Oi domina a operação dos telefones públicos remanescentes, enquanto a Claro aparece apenas em dois municípios (Jaguari e São Gabriel). Não há aparelhos das companhias Algar,  Sercomtel e Telefônica.

Você sabia?
A expressão “caiu a ficha” nasceu dos orelhões. Isso porque, quando o uso só era feito com a ficha, o aparelho só completava a ligação quando ela caía dentro do aparelho. Enquanto isso não acontecia, a chamada não seguia. Daí o sentido popular da frase, usada até hoje quando alguém finalmente entende algo.

Além disso, o nome oficial do equipamento é Telefone de Uso Público (TUP), mas no Brasil ele acabou popularizado pelo apelido orelhão, referência direta ao formato arredondado da cabine.

Em Santa Maria, um dos orelhões encontrados pela reportagem fica em frente à Estadual de Ensino Médio Professora Maria Rocha, na Rua Conde de Porto Alegre.Foto: Vinicius Becker (Diário)





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